Debate na Alepe cobra ações mais coordenadas para evitar novas tragédias com as chuvas

Em 20/06/2022
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Virou um mar aqui de água. O fato aconteceu, depois a contabilidade do prejuízo, depois para todos os moradores caiu a ficha e, por último, o psicológico dos moradores. Esse que é danado e fundamental, está todo mundo sem saber o que fazer”.

Valter Libâneo é uma liderança do bairro do Ibura, no Recife. Ele e diversos outros representantes comunitários exigiram providências para que os trágicos efeitos das chuvas de maio e junho sejam mitigados e não se repitam em Pernambuco. O tema foi tratado em audiência pública realizada pela Comissão de Meio Ambiente da Alepe, nesta segunda. Thyago Amorim, representante de moradores do bairro de Porto da Madeira, no Recife, afirmou que, passados 25 dias do começo das enchentes, 68 famílias da localidade ainda não foram cadastradas pela Prefeitura do Recife, o que impede o acesso a benefícios sociais. A demora no cadastro também foi apontada por Amanda Salazar, líder comunitária de Comportas, em Jaboatão dos Guararapes.

A falta de limpeza do rio Beberibe foi apontada por moradores de Olinda e Recife como causa de cheias. Já Lídia Lins, representante de coletivos da comunidade do Ibura, no Recife, denunciou que os moradores não receberam apoio estatal nem mesmo para socorrer pessoas soterradas e resgatar corpos.

Autoridades municipais e estaduais não abordaram demandas específicas, mas foram unânimes em estimar que as mudanças climáticas vão tornar eventos extremos cada vez mais comuns, o que pede medidas em todos os níveis de governo. O secretário-executivo de Defesa Civil de Pernambuco, tenente coronel Leonardo Rodrigues, ressaltou que a pasta é composta por diversas dimensões, a exemplo da proteção ambiental e das políticas de moradia e urbanismo, e valorizou a participação social para a avaliação de riscos. Já o secretário-executivo de Defesa Civil do Recife, coronel Cassio Santana, apresentou um conjunto de medidas tomadas pelo órgão e propôs a criação de uma comissão parlamentar de acompanhamento do tema.

O secretário de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Recife, Carlos Ribeiro, observou que os municípios precisam de acesso a financiamento robusto para contribuir com a redução de emissões de carbono, e apresentou o Plano Local de Ação Climática elaborado pela prefeitura da capital em 2020. Ele informou, no entanto, que o plano de adaptação do Recife às mudanças climáticas ainda está em processo de elaboração e deve ser lançado este ano. “O plano de adaptação vai trabalhar, no caso do Recife, quais soluções vamos ter no eixo da economia (…), quando ocorre uma chuva, a gente já tem estudo feito das áreas vulneráveis e de alagamento. Então o que a gente aqui em Recife vai propor para essas áreas que já estão mapeadas e são classificadas como eixo de centralidade”.

A prefeita de Cortês, na Mata Sul, Maria de Fátima Borba, explicou que quase a totalidade dos habitantes da cidade vivem em áreas de encosta ou em regiões de alagamento, o que não pode ser resolvido com os recursos municipais. Nesse sentido, a presidente da Comissão de Meio Ambiente da Câmara do Recife, vereadora Liane Cirne, afirmou que o Governo Federal está empenhado no agravamento das mudanças climáticas, então cabe atualmente ao estado e aos municípios tentar encontrar soluções de forma conjunta.

Carol Virgulino, co-deputada do mandato coletivo Juntas, do PSOL, estendeu a crítica ao Governo do Estado por acatar o projeto de instalação da Escola de Sargentos e Armas do Exército em área de preservação ambiental de Aldeia, o que acarretará em desmate do maior fragmento de mata atlântica acima do rio São Francisco. A co-deputada também destacou que a gestão estadual não tem executado o orçamento reservado para saneamento básico.

O deputado que solicitou a audiência, João Paulo, do PT, lamentou a falta de articulação entre os municípios para tomar medidas em áreas limítrofes, mas ponderou que todas as prefeituras são carentes de recursos. “Têm recurso para isso as prefeituras? Eu acho que não (…). A pressão que nós temos que fazer em cima do Governo Federal, que cortou muitos recursos. A Região Metropolitana do Recife é uma das regiões mais pobres, então as famílias não têm onde morar”.

Além de reunir as diversas propostas mencionadas durante a reunião, o presidente da Comissão de Meio Ambiente, Wanderson Florêncio, do Solidariedade, informou outros dois resultados imediatos. “Portanto, eu acho que como encaminhamento dessa audiência (…), a gente promover um relatório, promover um pedido de informação com os questionamentos que ficaram aqui em aberto para resposta oficial do Governo, e também uma carta aberta da Comissão de Meio Ambiente como manifestação, sendo a voz da sociedade pernambucana”.

Ao final do encontro, os deputados Wanderson e João Paulo comunicaram a intenção de acompanhar permanentemente a estruturação de medidas de defesa civil nos municípios, por meio da Comissão de Meio Ambiente.